Brasil ensaia reação contra racismo ‘enraizado’ no futebol

Legado Político, Social e Conhecimento

23/09/2014
Tinga, do Cruzeiro, é perseguido com sons imitando macaco no Peru

A recepção hostil da torcida do Grêmio ao goleiro Aranha, do Santos, na quinta-feira, deu a dimensão da longa batalha contra o racismo. Sem usar o termo "macaco", os gremistas conseguiram ser mais implacáveis na marcação ao jogador do que no confronto anterior pelos dois clubes, dia 28/8, que determinou a exclusão dos gaúchos da Copa do Brasil. Reflexo de uma cultura antiga nas arquibancadas, sentida por quem viveu um futebol com menos mídia e bem mais agressividade.

"Ser xingado de macaco era normal, ainda mais para mim, que nasci em Joinville, onde só tinha alemão. Incomodava, mas o jeito era fazer de conta que não estava ouvindo e continuar jogando. Se não tivesse feito isso, não jogaria futebol por tanto tempo", diz Jairo do Nascimento, goleiro do Coritiba nos anos 70 e no título brasileiro de 1985.

Jairo foi vítima do mesmo problema enfrentado por Aranha não só dentro, mas também fora dos estádios. Em 2005, o jogador foi parado em uma blitz pela polícia ao ser confundido com um sequestrador. "Aconteceu porque estava dirigindo um carro bom, do ano. Aí você é obrigado a dizer que é fulano, usar sua profissão, para a coisa mudar de figura", relembra.

Contemporâneo de Jairo, o ex-lateral esquerdo e hoje comentarista esportivo Dionisio Filho chegou a reagir a insultos racistas. Espelhava-se em Paulo Cézar Caju. Quando saiu na revista Placar, em 1976, falando do assunto, foi aconselhado a deixar quieto. Aquela era a cultura do futebol e acabaria se prejudicando, diziam.

"A visão das pessoas começou a mudar neste ano, com o Tinga. Mas talvez nunca acabe totalmente. É só ver os EUA, onde o negro tem uma qualidade de vida muito melhor e o racismo não acaba", aponta Dionísio. "O próprio caso do Aranha é um exemplo. Estão invertendo os papéis e ele de vítima está passando a réu. Chamar de macaco é reduzir o ser humano a nada", prossegue.

Estudiosos do racismo no futebol concordam que a reação - inclusive do governo federal - aos insultos sofridos pelo volante do Cruzeiro, no Peru, são um marco. Curiosamente, no ano com maior número de registros de casos de racismo nos gramados. Segundo levantamento do Observatório Racial do Futebol, foram 15 casos no futebol brasileiro neste ano. O próprio órgão, com sede no Rio Grande do Sul, surgiu em meio a essa onda e é pessimista quanto ao controle total das manifestações.

"Quando deu o caso do Tinga, todo mundo achou que seria o último. O do Márcio Chagas também. Aí veio o do Aranha e percebeu-se que não será o último porque o racismo da arquibancada é o mesmo do dia a dia", diz Marcelo Carvalho, criador e organizador do Observatório. "Ao menos com o caso do Aranha paramos de discutir no Rio Grande do Sul se gritar macaco no estádio é ou não ofensa. Já foi um avanço", prossegue.

Um avanço que depende de dois pontos para ser acentuado: punição rigorosa e acompanhamento constante da imprensa. "Durante um período há comoção, a imprensa age com rigor, mas logo o caso cai no esquecimento até o próximo episódio", diz Luiz Paulo Maia, professor de jornalismo e responsável pelo núcleo de estudos de futebol da UFPR.

"Hoje em dia, muitas pessoas não têm controle e são ignorantes. Se punir a pessoa, não o clube, vão pensar duas, três vezes antes de fazer qualquer coisa", acrescenta - e torce - Jairo.


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